Minha experiência com o Ubuntu Touch no Nexus S

Ubuntu Touch

 

A ansiedade

É difícil em um primeiro momento conter toda aquela sede de um early adopter. Como trabalho com tecnologia, mais especificamente criando meios para retratá-la, as vezes me pego empolgado com alguma nova forma de entendê-la. Mas fique atento caro leitor. A ansiedade não lhe trará benefícios. O melhor exemplo é o que eu acabo de passar com o Ubuntu Touch e que calmamente relatarei, neste blog.

Como todos sabem, o Ubuntu Touch é um sistema operacional novo destinado a tablets e smartphones. O sistema não é o Ubuntu tradicional que conhecemos, portanto recolha todos os seus preconceitos sobre Linux para Desktop. O Touch é um sistema baseado em Linux, com uma remodelada total na interface e, principalmente, o modo como interagimos com ela. Pode ser que finalmente a Canonical, a empresa por trás de tudo isso, tenha descoberto o uso mais útil da barra lateral de ícones grandes, o Unity.

Vale ressaltar que não faço nenhum julgamento de valor, necessidade de mercado, qualidade final do produto, fabricantes engajados e outras considerações que deveriam constar em uma análise. O objetivo aqui é um relato de um dia de uso.

 

 

Experiência inicial

Bom, vamos falar da experiência. Esperei ansiosamente, dias a fio, por uma forma de instalar o Ubuntu Touch em meu já idoso Nexus S. Na ocasião do lançamento, somente quatro aparelhos receberam a chancela oficial – os principais dispositivos do Google. Pesquisei em fóruns, lista de discussão e até no canal IRC do sistema. Cogitei até a possibilidade de fazer isso manualmente, já que há um guia bem completo de como fazer isso, mas a falta de tempo me fez esperar. Imagino que você deva estar assim, mas tenha paciência o sistema não está pronto para o uso.

Versões para outros aparelhos não param de aparecer. Em um fórum, o conhecido XDA Developers, um sujeito fez a migração para Nexus S. No primeiro teste itens cruciais como Wi-Fi e botões não funcionavam. Em um terceiro beta estes itens começaram a funcionar. Era hora da primeira tentativa. Segui o roteiro pacientemente. Vale um aviso, se você quer ter sua própria experiência: seu aparelho tem que ser desbloqueado para instalação de outras ROMs (versões customizadas de Android) e um belo software de backup integral, ou bit a bit. O tutorial recomenda a instalação prévia do ClockWorkMod e do Team Win Recovery Project. Assim o fiz.

A instalação é simples. Basta copiar três arquivos compactados, limpar o cache e aplicar no aparelho um processo conhecido como flash (tem uma ordem correta). Depois é só reiniciar o aparelho. Até aparecer a tela foi aquele momento de tensão. Já vi diversos aparelhos falharem e se transformarem em apoio de papel. Alguns segundos depois vi uma tela de inicialização com o degrade roxo com marrom, a opção de cor preferida do pessoal da Canonical.

 

 

O sistema esmiuçado

Como disse, a primeira tela aparece a cor padrão do sistema, com indicadores do relógio e um símbolo circular com a frase “14 tweets received”. Um monte de ícones no topo também chamaram atenção, especialmente um de busca. Imaginei que se tratava de uma tela de desbloqueio. Este seria o pensamento mais acertado, já que os outros sistemas agem de forma semelhante. Não é. O sistema vem desbloqueado.

Como vi a apresentação do astronauta civil Mark Shuttleworth, já fui com os dedos nervosos nas bordas do aparelho para ver quais movimentos funcionariam. Surpresa! Da esquerda para o centro revelou o Unity. Aplicativos com ícones de cantos arredondados que estou acostumado. No canto inferior um ícone com o símbolo de união de pessoas, que representa o sistema de desktop. Cliquei nele e fui parar em outra tela, o famoso Home – Ah! Home Sweet Home.

Lá apareceu uma série de ícones de aplicativos, mensagens recentes e pessoas que nunca vi na vida – alguns nomes familiares, que posso ter esbarrado em minhas andanças virtuais. Cliquei em alguns deles e nada. Ué, o sistema não está pronto? Falso meus amigos, como uma nota de três reais.

Arrastando os dedos pelas outras laterais não exploradas, descobri em um movimento do centro para a esquerda ou direita, que o sistema tem cinco áreas de trabalho: Home, People, Music, Videos e Apps. Uau! Eles aproveitaram o conceito de áreas de trabalho virtuais – inspirado no conceito mais antigo de múltiplos terminais-, para popular a tela com ícones de aplicativos e conteúdo. Á área de vídeos e músicas traz belas capas, lançamentos e outros detalhes. Navegação por capas – ou cover flow. Muito aprazível. A ideia não é nova, com absoluta certeza, mas a implementação realmente me agradou.

Voltei ao Unity e cliquei no ícone do navegador. Lentidão extremada para abrir. Fiquei pensando que meu processador de um núcleo e 1 GHz é coisa pouca, um pequinês no mundo cheio de núcleos. Abriu e veio a mensagem de erro. É claro, não havia configurado o Wi-Fi. Dedos nervosos em ação procuraram por um ícone de configuração. Nada, niente, nothing, nichts! Até que resolvo clicar no ícone no topo que supostamente é o da rede sem fio. Não por acaso, resolvi escorregar o dedo do topo para baixo. Ahá! Há uma barra de notificação. E lá estava a configuração da rede sem fio. Configurei e voltei para a aplicação com facilidade escorregando o dedo da direita para a esquerda. Entrei no site da INFO e tudo funcionou. Movimento de pinça e todos os outros movimentos esperados. A lentidão pareceu sumir por instantes, mas voltou ao abrir outras aplicações.

As aplicações abertas ficam na área virtual “Home”, posicionadas em uma lista de aplicativos que estão em execução. Acesso rápido simplificado é o nome que deveria constar nos anais da documentação. A leitura visual da tela me cansou. Então resolvi procurar diminuir o brilho. Mais uma vez, fui na barra de notificação e percebi que abrir a barra para ocupar 1/3 de seu tamanho total, consigo, sem soltar o dedo, mover para as laterais e alternar entre as opções. Engenhoso eu diria.

O aplicativo de foto abriu e capturei algumas fotos. Não há muitas opções e o desenho do aplicativo vai melhorar. Está em um nível mockup. Demorei para entender as funções. Enfim, achei as fotos na galeria e descobri que na aplicação há uma barra no topo. Arrastando para as laterais alterna o contexto da aplicação. Uma espécie de abas por gestos. Engenhoso mais uma vez. As imagens ficaram boas, a propósito.

Abandonei a experiência para ir a uma reunião da INFO. Estávamos decidindo o que você, nobre leitor, lerá na próxima edição da revista impressa. Eis que de supetão o telefone toca. Vergonha, vergonha! Saí para atender e mal conseguia arrastar a barra para a direita para atender. Fui até o telefone em minha mesa para completar a ligação. Voltei a sala de reunião em seguida e tentei entrar na minha conta de Facebook, para checar uma informação. Como habilitei a autenticação em duas vias, tive que aguardar um SMS com o código. O danado custou a chegar e quando chegou, não fez nem barulho – ou eu no afã de acessar logo não percebi. Larguei ele de lado e fui por outras vias checar a informação.
Um detalhe que me deixou animado foi um menu de contexto, dentro de cada aplicação, com opção de falar os comandos a serem executados. Não funciona, mas é um forte indicativo que o sistema terá um servidor de reconhecimento de voz próprio.

Cheguei em casa tarde, fiz as tarefas básicas de um cidadão comum e fui dormir. Nesta hora que costumo zapear um pouco mais no celular. Fiquei literalmente frustado. O negócio realmente não oferece muitas opções. Vários aplicativos não funcionam mesmo. São figurativos. Desisti e procurei um despertador. Nada. Recorri a métodos mais espartanos e abandonei mais uma vez esta preciosidade da vida moderna, ou pós moderna como preferirem.

 

Conclusões óbvias

Deveria ter lido o blog do Jono Bacon, líder de comunidade, cujo título é “Cinco fatos sobre o Ubuntu Touch”. Especialmente o item B que fala explicitamente que o sistema está incompleto e em desenvolvimento. Se era para me encorajar a desenvolver, acho que falhou. Mesmo eu já ter sido fisgado pelo sistema antes do lançamento. Voltarei a usar Android no meu dispositivo. iOS e outros no meu trabalho oficial no INFOlab, aonde tenho que exercitar sempre a imparcialidade. Mas estes são os fatos sobre o Ubuntu Touch que colhi.

Ah! Uma última coisa. Tentei entrevistar o sujeito que migrou o sistema para o meu aparelho. Ele não respondeu. Se houver uma resposta eu lhes conto.

Gravei um vídeo para demonstrar o novo sistema no Google Nexus S, de forma “caseira”, divirtam-se:

[youtube width=”550″ height=”444″]http://www.youtube.com/watch?v=0JLOvhMV_g8[/youtube]

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